COLÁGENO: O QUE É E POR QUE É TÃO IMPORTANTE

Sendo a proteína mais abundante no corpo humano, colágeno é encontrado em músculos, ossos, pele, vasos sanguíneos, sistema digestivo, cartilagens, ligamentos e tendões. Na maioria das vezes, o que mais se é lembrado se tratando de colágeno é a sua função de manter a força e a elasticididade da pele. No entanto, como dito, essa proteína é encontrada em outras partes do corpo e hoje sabemos o quanto sua falta pode desfavorecer a saúde do sistema gastrointestinal, das articulações, dos cabelos, unhas, ossos e dentes.

O corpo produz colágeno, com maior ou menor eficiência, dependento da qualidade da alimentação e sendo influenciado também pelo fator idade – existe uma tendência na diminuição da eficiência de síntese de colágeno conforme envelhecemos. Muitos sinais, como rugas, flacidez da pele, dores articulares (pela baixa integridade de cartilagens, ligamentos e tendões), unhas e cabelos quebradiços e precária saúde dental, podem ser, ao menos em parte, atribuídos à baixa de colágeno no organismo.

 

TIPOS E CARACTERÍSTICAS

O colágeno pode ser dividido em vários grupos, dependendo do tipo de estruturas que formam. Existem 28 tipos de colágeno que foram descobertos, destes os mais comuns sendo os tipos I, II, III e IV. O colágeno tipo I é o mais abundante em mamíferos, onde representa 70–90% do total de colágeno no corpo. [1, 2]

O colágeno é uma proteína, e, como todas as proteínas, é constituído de aminoácidos. Colágeno contém 19 aminoácidos, incluindo hidroxiprolina, que não ocorre em outras proteínas. Sua composição atípica de aminoácidos é caracterizada por alto teor de prolina e glicina, além da ausência de cisteína [3].

A sequência de aminoácidos primária do colágeno é glicina-prolina-X ou glicina-X-hidroxiprolina [4].

X pode ser qualquer um dos outros 17 aminoácidos e cada terceiro aminoácido é glicina.

O colágeno é composto por três cadeias. As cadeias são enroladas juntas para formar uma hélice tripla. Como a glicina é o menor de todos os aminoácidos, ela permite que a cadeia forme uma configuração compacta e pode suportar o estresse. O processo de síntese do colágeno ocorre principalmente nos fibroblastos, que são células especializadas com a função principal de sintetizar o colágeno e o estroma. A síntese de colágeno ocorre tanto de modo intracelular como de modo extracelular. [1]

Abaixo, uma breve descrição dos tipos de colágeno mais comuns:

  • Colágeno tipo I: o colágeno tipo I é o principal componente da matriz orgânica do osso, dentina e cemento, a fina camada de tecido calcificado que cobre as raízes dos dentes e os ancora na mandíbula [5];

  • Colágeno tipo II: o colágeno tipo II é um dos principais tecidos conjuntivos do corpo, proporcionando flexibilidade e suporte às articulações ósseas [6];

  • Colágeno tipo III: o colágeno tipo III é o segundo colágeno mais abundante dos tecidos moles e domina as fases iniciais da cicatrização de feridas e formação do tecido de granulação [7];

  • Colágeno tipo IV: o colágeno tipo IV é o principal colágeno da membrana basal. É um colágeno formador de rede que sustenta as células epiteliais e endoteliais e funciona como uma barreira entre compartimentos de tecido [8].

O colágeno ajuda na reparação de ossos e vasos sanguíneos. Na córnea, o tecido colágeno adquire propriedades mecânicas e ópticas. Está presente nas funções biológicas da célula, como proliferação, sobrevivência celular e diferenciação; então o colágeno está presente no corpo humano como um todo nos ossos, tendões, ligamentos, cabelos, pele e músculos [9, 10, 11].

 

O QUE O ORGANISMO PRECISA PARA UMA PRODUÇÃO EFICIENTE DE COLÁGENO?

O organismo é uma máquina incrível que, para seu correto funcionamento, depende de nutrientes, além, é claro, de um estilo de vida saudável que proporcione baixa intoxicação, adequada desintoxicação, boa digestão, e que englobe exercícios físicos, boa qualidade de sono, contato com a natureza, etc. Quando você dá ao seu corpo aquilo que a biologia dele espera, tudo tende a funcionar melhor, inclusive os mecanismos de produção de colágeno. Obs.: três dos micronutrientes mais proximamente envolvidos no processo de síntese de colágeno incluem vitamina C, magnésio e zinco [12].

O colágeno é uma proteína, e, como todas as proteínas, é constituído de aminoácidos, por isso é importante incluir na dieta alimentos que abasteçam o corpo com boa quantidade e qualidade de aminoácidos, e as melhores alternativas nesse sentido são os alimentos de original animal. Contudo independente da fonte, proteínas são sempre bem-vindas, pois providenciam aminoácidos, que são os blocos de construção das proteínas, e essas são os blocos de construção de todo o organismo.

Vale lembrar que o fato do organismo ser capaz de produzir determinados nutrientes, isso não significa que não seja interessante ou importante obtê-los de maneira exógena (pela dieta). Para produção de colágeno, o corpo necessita de aminoácidos específicos, e mesmo sendo capaz de produzir muitos desses aminoácidos, seu consumo através da alimentação ou suplementação representa um facilitador da produção de colágeno. O consumo de colágeno em si (presente em maior parte nos tecidos conjuntivos dos animais, como cartilagens, peles, ossos e outros) é uma ótima estratégia, porque ali já estão presentes em proporções adequadas todos os bloquinhos de construção do colágeno. 

Infelizmente, com o passar das gerações o homem foi perdendo o hábito de consumir todas as partes dos animais, ficando mais com as partes musculares, que são menos concentradas em colágeno e mais carentes nos aminoácidos principais que compõem o colágeno. Nesse sentido, a adoção de uma abordagem alimentar mais alinhada ao chamado "nose to tail" (do nariz à calda) pode contribuir muito com uma produção otimizada de colágeno, tendo impactos positivos na saúde e estética.

Prolina e glicina são dois dos principais aminoácidos encontrados na estrutura do colágeno. Ambos não estão presentes em abundância nas carnes de animais ou alimentos de origem vegetal, aparecendo em quantidades significativas em vísceras e, é claro, nas partes dos animais ricas em colágeno, motivo pelo qual maioria das pessoas não obtém grande quantidade desses aminoácidos via dieta – uma vez que, como já dito, o homem foi perdendo o hábito de consumir todas as partes dos animais –, o que poderia otimizar a produção de colágeno em seus corpos.


⇒ OBSERVAÇÃO

O sistema digestivo é o responável por extrair e absorver os nutrientes dos alimentos, o que garante nossa sobrevivência e o correto funcionamento de nossos corpos. Exatamente por isso devemos sempre estar atentos a tudo que nele acontece. Um sistema digestivo disfuncional pode, dentre outras coisas, resultar em deficiências nutricionais, gerarando menor qualidade de vida. Para uma produção eficiente de colágeno antes de tudo você precisa de uma boa digestão, portanto preocupe-se com isso. Acompanhe também Hiperpermeabilidade intestinal: a porta de entrada para inúmeras doenças e entenda por que a saúde gastrointestinal é tão importante em vários aspectos da saúde.


 

COLÁGENO VIA ALIMENTOS OU SUPLEMENTOS

Como previamente descrito, o consumo de colágeno é uma ótima estratégia para otimizar a produção de colágeno no organismo, uma vez que ali já estão presentes em proporções adequadas os aminoácidos componentes do colágeno. Para aumentar o consumo de colágeno, você pode fazer uso regular de determinados alimentos ou, ainda, lançar mão de suplementos de colágeno.

Colágeno via alimentos

Sendo uma proteína de origem animal e a mais abundante no corpo de mamíferos, como onívoro(a) você invariavelmente irá consumir colágeno, em maior ou menor quantidade, dependendo da composição da sua dieta. As maiores fontes de colágeno são os tecidos conjuntivos animais, como ossos, cartilagens, peles, mucosas e ligamentos. Algumas maneiras simples de aumentar sua ingestão de colágeno na alimentação do dia a dia: consuma regularmente pezinhos e pescoços de frango ou receitas feitas com patas de porco ou de bovino, nunca descarte a pele do frango, consuma peixes inteiros, faça regularmente caldo de ossos, caldo de carnes com ossos e caldo de peixes.

Colágeno via suplementos

Como uma forma de facilitar ou aumentar o consumo de colágeno, hoje é possível fazer uso de suplementos/produtos obtidos de tecidos conjuntivos riquíssimos em colágeno. Além dos suplementos rotulados "colágeno", "proteína de colágeno", "colágeno hidrolisado" e "peptídeos de colágeno", você também pode obter grande concentração de colágeno a partir da gelatina em pó (incolor sem sabor) ou do caldo de osso em pó (muito conhecido por "bone broth protein" ou "bone broth collagen").


⇒ OBSERVAÇÃO

Existe um suplemento no mercado denominado colágeno tipo II não desnaturado ou não hidrolisado que é administrado em doses baixíssimas, geralmente 40 mg diários. Esse suplemento pode ser muito útil na osteoartrite, uma condição caracterizada pela degeneração das cartilagens. O motivo pelo qual é feito de colágeno nativo (isto é, não desnaturado) e é usado em doses baixíssimas tem a ver com seu mecanismo de ação, que não é via servindo de matéria-prima para a síntese de colágeno e sim via gerando uma modulação imunológica. Através de uma cascata de eventos, pode promover a secreção de mediadores anti-inflamatórios, o que ajuda a reduzir a inflamação das articulações e promove a reparação da cartilagem [13].

 

DIFERENÇAS ENTRE COLÁGENO HIDROLISADO, GELATINA E CALDO DE OSSOS

O colágeno bruto, cru, não processado é chamado de colágeno nativo. O colágeno nativo começa a desnaturar assim que é aquecido e é quase totalmente desnaturado quando atinge os 60 °C. O calor desfaz a arquitetura do colágeno, quebrando-o em suas cadeias α constituintes. Com o tempo, algumas dessas cadeias α também se separam por hidrólise (quebra de ligações químicas na presença de água). É basicamente isso que a gelatina e o caldo de ossos são, colágeno desnaturado e parcialmente hidrolisado. Ao esfriarem, a gelatina e o caldo de ossos gelificam, pois todos os pedaços e pedaços de cadeia α do colágeno tendem a, pelo menos parcialmente, se recompor.

No processo de fabricação da gelatina (normalmente a partir da pele/couro e/ou ossos de porcino ou bovino) obtem-se um produto rico em colágeno (nesse caso parcialmente hidrolisado) que depois é transformado em pó. Podemos, portanto, nos referir à gelatina como colágeno parcialmente hidrolisado.

Os suplementos de colágeno em pó que você encontra no mercado são hidrolisados, o que significa que passam por um processo adicional específico de hidrólise, antes de virarem pó, o que deixa ainda mais quebradinhas as moléculas do colágeno. Em tese, são ainda mais facilmente absorvidos pelo corpo do que a gelatina. E caso você esteja se perguntando, é isso mesmo, o suplemento de colágeno em pó é obtido de modo igual ou muito semelhante (pode variar de marca para marca) à gelatina, com a diferença de que no meio do caminho passa por um processo adicional específico de hidrólise.

O colágeno parcialmente hidrolisado (ou gelatina) é misturada com enzimas (as mais comuns são papaína, alcalase, α-quimiotripsina, pepsina, tripsina, colagenase e bromelaína). Às vezes, as enzimas são adicionadas simultaneamente com o tratamento com ácido, sendo a combinação mais comum ácido acético e pepsina. Muitos suplementos de colágeno em pó também serão anunciados como peptídeos de colágeno, o que diz respeito às pequenas várias moléculas resultantes do processo de hidrólise com enzimas. Vale destacar, ainda, que esse processo faz com que o pó se misture bem em líquidos frios ou quentes, sem gelificar, e não endureça como a gelatina, mesmo diante de refrigeração, o que pode facilitar o consumo, dependendo da forma de uso.

E quanto ao caldo de ossos? Como observado no começo desse tópico, o caldo de ossos, assim como a gelatina, é colágeno parcialmente hidrolisado. Pode ser produzido artesanalmente ou comprado já pronto, em sua forma original ou em pó. A versão em pó, que é um suplemento, trata-se de um produto muito similar à gelatina, e o nível dessa similaridade poderá ser maior ou menor dependendo dos processos pelos quais ele passa (pode variar de acordo com o fabricante). Além disso, o caldo de ossos é invariavelmente oriundo de ossos, já a gelatina pode ser oriunda também de outros tecidos. Caso veja algum suplemento de caldo de ossos denominado hidrolisado, provavelmente você estará diante de um produto muito semelhante ao colágeno em pó.

Para obtenção otimizada dos aminoácidos construtores de colágeno, especialmente prolina e glicina, que não estão em grandes quantidades na maioria das fontes proteicas, colágeno hidrolisado (ou peptídeos de colágeno), gelatina e caldo de ossos são três boas opções. Importantíssimo lembrar que quando falamos de gelatina, estamos nos referindo à gelatina incolor sem sabor.

 

BENEFÍCIOS DA SUPLEMENTAÇÃO DE COLÁGENO HIDROLISADO (PEPTÍDEOS DE COLÁGENO)

Após os 40 anos de idade o corpo humano pode ter uma perda de colágeno de aproximadamente 1% ao ano, e por volta dos 80 anos a produção de colágeno no corpo pode diminuir 75% em comparação com a de adultos jovens (18–29 anos) [14,15]. É claro que isso é também dependente do estilo de vida de cada um. Excesso de radicais livres no organismo, dieta precária, tabagismo, alcoolismo e doenças podem, por exemplo, favorecer a perda de colágeno. Sendo o colágeno uma proteína tão importante para inúmeras partes do corpo, a suplementação de seus bloquinhos construtores (ainda que o corpo tenha capacidade de sintetizar muitos deles, como vimos) pode ser bastante útil, especialmente a indivíduos que já passaram dos 40 anos de idade.

Saúde da pele

Quando se fala em colágeno ou suplementação de colágeno, geralmente o que vem primeiro na cabeça das pessoas é a saúde e beleza da pele. E de fato, a suplementação de colágeno pode contribuir muito nesses aspectos.

Por exemplo, um estudo duplo-cego e controlado por placebo observou que 2,5 g e 5 g de colágeno hidrolisado usado entre mulheres de 35 a 55 anos uma vez ao dia durante oito semanas melhorou significativamente determinados parâmetros relacionados à fisiologia cutânea e envelhecimento, incluindo elasticidade, umidade e aspereza da pele, e perda de água transepidérmica (secura).

O colágeno hidrolisado atua de duas formas diferentes na derme; na primeira ação, os aminoácidos livres fornecem os blocos de construção para a formação das fibras de colágeno e elastina. Na segunda ação, os oligopeptídeos de colágeno atuam como ligantes, ligando-se aos receptores na membrana dos fibroblastos e estimulando a produção de novo colágeno, elastina e ácido hialurônico [16].

Em 2021 foi realizada uma revisão sistemática e meta-análise, envolvendo 19 estudos e um total de 1.125 participantes com idades entre 20 e 70 anos (95% mulheres). Segundo autores, com base nos resultados, a ingestão de colágeno hidrolisado por noventa dias é eficaz na redução do envelhecimento cutâneo, visto que isso diminui as rugas e melhora a elasticidade e hidratação da pele [17].

A suplementação oral de colágeno hidrolisado atinge as camadas mais profundas da pele e melhora sua fisiologia e aparência, aumentando hidratação, elasticidade e firmeza, reduzindo rugas e rejuvenescendo a pele [18, 19]. 

Em um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado na Nutrition Research, participantes receberam um produto baseado em colágeno hidrolisado de peixe (contendo também vitaminas, antioxidantes e outros ingredientes ativos) ou um placebo diariamente durante noventa dias. Os indivíduos que receberam o produto tiveram um aumento geral significativo na elasticidade da pele comparado ao placebo. A análise histológica das biópsias de pele revelou alterações positivas na arquitetura da pele, com redução da elastose solar e melhora na organização das fibras de colágeno.

Saúde das articulações

O colágeno é um componente chave de cartilagens e ligamentos – esses presentes nas articulações –, portanto um maior aporte dos bloquinhos construtores do colágeno pode ser uma excelente estratégia visando a otimização da integridade das articulações, inclusive em casos de condições específicas como a osteoartrite e a osteoartrite pós-traumática [20, 21].

Um ensaio clínico randomizado duplo-cego publicado na International Orthopaedics avaliou a eficácia do colágeno hidrolisado e a eficácia do sulfato de glucosamina na osteoartrite de joelho. Uma dose de 10 g por dia de colágeno hidrolisado demonstrou redução estatisticamente significativa nos escores WOMAC em comparação com o placebo após 13 semanas [22]. O WOMAC é um questionário de qualidade de vida tridimensional (dor, rigidez articular e atividade física), específico para a avaliação de pacientes com osteoartrite.

Segundo artigo de revisão publicado em 2006, a ingestão de colágeno hidrolisado estimula um aumento estatisticamente significativo na síntese de macromoléculas da matriz extracelular pelos condrócitos e esses achados sugerem mecanismos que podem ajudar os pacientes afetados por distúrbios articulares, como a osteoartrite. A matriz extracelular é a porção não celular de um tecido, composta por uma rede de macromoléculas (principalmente proteínas e polissacarídeos) que são secretadas pelas células adjacentes e permitem um suporte bioquímico/estrutural das mesmas.

Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, inclusive já mencionado nesse artigo, demonstrou que um produto à base de colágeno hidrolisado de peixe (contendo também vitaminas, antioxidantes e outros ingredientes ativos), além de melhorar certos parâmetros relacionados à fisiologia da pele, reduziu a dor nas articulações em 43% e melhorou a mobilidade articular em 39%.

Um estudo de 2017 revelou que a suplementação com peptídeos de colágeno (5 g por 12 semanas) em adultos jovens com problemas funcionais nos joelhos levou a uma melhora estatisticamente significativa da dor nas articulações relacionada à atividade. Outros estudos também evidenciam os benefícios do colágeno hidrolisado para as articulações, incluindo regeneração e diminuição de dor e rigidez [23, 24, 25, 26].

Saúde dos ossos

No osso, colágeno desempenha papel importante na transmissão de força e manutenção da estrutura do tecido. É importante ressaltar que ele determina a quantidade de deposição mineral. Portanto a capacidade do osso de resistir a forças mecânicas e fraturas depende não apenas da quantidade de tecido ósseo (mineralização), mas também de sua qualidade (organização da estrutura de colágeno) [27].

Evidências demonstram que o colágeno hidrolisado possui propriedades bioativas benéficas para o tecido ósseo, incluindo estimulação de células formadoras de osso, melhoria da absorção de cálcio, e capacidades anti-inflamatória e antioxidante [28].

A osteoporose constitui uma doença do esqueleto de causa multifatorial que se caracteriza pela redução da massa óssea e deterioração da integridade anatômica e estrutural dos ossos, levando ao aumento da fragilidade óssea e suscetibilidade à fratura. Uma revisão de 2016 concluiu que o colágeno hidrolisado tem efeito terapêutico na osteoporose (e também na osteoartrite), com potencial aumento da densidade mineral óssea, efeito protetor na cartilagem articular e, especialmente, no alívio sintomático da dor.

De acordo com um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo com a participação de 131 mulheres pós-menopáusicas com densidade mineral óssea reduzida, a suplementação de 5 g diários de peptídeos de colágeno por doze meses foi capaz de aumentar significativamente a densidade mineral óssea, bem como os níveis sanguíneos do marcador de formação óssea P1NP.

Alguns estudos em animais também demonstraram os prós da suplementação de colágeno hidrolisado na saúde óssea [29, 30, 31, 32, 33, 34]. Um deles, inclusive, notou que existe um claro indicativo de que seus benefícios para a prevenção da osteoporose vão além do efeito de uma simples suplementação de proteína [34]. Isso significa que o colágeno hidrolisado pode ter um efeito peculiar na integridade dos ossos.

Melhora da composição corporal e força

Como o colágeno é constituído de aminoácidos, seu consumo pode ter um efeito positivo na construção muscular dentro do corpo. Contém quantidades razoáveis de isoleucina, leucina e valina (aminoácidos de cadeia ramificada, BCAAs), que podem ajudar na síntese proteica dos músculos [35]. Além disso, é fonte de glicina, arginina e metionina, os três aminoácidos requeridos para a produção endógena de creatina [36], um componente importante para a força e massa muscular.

Em um estudo randomizado de 12 semanas, 26 homens com sarcopenia foram colocados em um programa de exercícios e receberam 15 g por dia de peptídios de colágeno (grupo de tratamento). Outros 27 homens com a mesma condição também seguiram o programa de exercícios, mas receberam um placebo (grupo placebo). O grupo de tratamento ganhou significativamente mais massa muscular e força.

Em outro estudo, o efeito do treino de resistência (três vezes por semana) + suplementação de peptídeos de colágeno (15 g/dia) foi analisado em mulheres na pré-menopausa dentro de um período de 12 semanas. Em comparação com exercício de resistência + suplementação com placebo, o treino de resistência em combinação com a suplementação de peptídeos de colágeno induziu um aumento mais expressivo na massa magra e na força, além de perda significativamente maior de massa gorda.

Um estudo de 2020 com pacientes em reabilitação (devido a fratura ou acidente vascular cerebral), observou que a ingestão oral de peptídeos de colágeno aumentou a massa muscular nesses pacientes. Outros estudos intervencionais mostraram que o treino de resistência combinado à suplementação de peptídeos de colágeno traz resultados positivos na composiçãp corporal (aumento na massa magra e diminuição da massa gorda) e na força muscular [37, 38, 39].

Como o colágeno é uma proteína, é de se esperar que dê suporte à reparação muscular, tal como foi notado nos estudos mencionados, o que não significa que seja melhor do que outras proteínas nesse quesito. Por exemplo, a proteína do soro do leite (whey protein) é mais concentrada em aminoácidos essenciais, especialmente em leucina, o que a torna potencialmente superior ao colágeno para a síntese proteica muscular. Um estudo publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, inclusive, evidenciou essa superioridade do whey protein em relação ao colágeno em termos de construção muscular.

Colágeno hidrolisado, por ser uma ótima fonte de aminoácidos de fácil assimilação, pode contribuir sim na melhoria da composição corporal e da força, mas provavelmente não é a opção número 1 se esse é o seu objetivo.

Atividade antioxidante

Há algumas evidências de que os peptídeos de colágeno podem atuar como antioxidantes em nosso organismo [40, 41, 42, 43, 44], o que pode ajudar a amenizar o estresse oxidativo, que, quando em níveis elevados, pode causar doenças.

Saúde de cabelos e unhas

O principal bloco de construção de nossos cabelos e unhas é a queratina (uma proteína). O organismo utiliza determinados aminoácidos para construir a queratina, e alguns deles podem ser encontrados em boas quantidades no colágeno [45, 46].

Vale notar que o estresse oxidativo pode danificar os folículos capilares [47]. Os peptídeos de colágeno potencialmente contribuem com o crescimento saudável dos cabelos também via apoiando o combate ao estresse oxidativo, como abordado há pouco.

Um estudo publicado em 2017, com 25 participantes, observou que a administração de um suplemento de peptídeos de colágeno (2,5 g/dia durante 6 meses) levou a melhorias na força e no crescimento das unhas. Não houve grupo placebo nesse estudo, o que reduz a força da evidência.

Saúde gastrointestinal

O colágeno atua na reparação do tecido conjuntivo gastrointestinal e sua suplementação pode ser uma grande aliada na manutenção ou recuperação da saúde digestiva. Indivíduos com aumento excessivo da permeabilidade intestinal – hiperpermeabilidade intestinal –, além de outras condições intestinais, como síndrome do intestino irritável e Crohn, podem particularmente se beneficiar bastante do colágeno hidrolisado, já que é um produto de facílima assimilação pelo sistema digestivo (que nessas condições já está mais sensível), mas o caldo de ossos e a gelatina incolor sem sabor também podem ajudar.

Observou-se que em pacientes com doença inflamatória intestinal as concentrações séricas de colágeno tipo IV estavam diminuídas [48]. Como os aminoácidos no colágeno constroem o tecido que reveste o cólon e o trato gastrointestinal, a suplementação com colágeno pode ser muito útil nesse sentido.

Um estudo descobriu que peptídeos de colágeno amenizaram a disfunção da barreira epitelial intestinal via otimizando as chamadas "tight junctions" (essas estão prejudicadas na hiperpermeabilidade intestinal). É importante destacar, no entanto, que esse experimento foi realizado em placas de Petri e não em humanos.

 

AMINOÁCIDOS DE GRANDE DESTAQUE NO COLÁGENO

Embora seja uma fonte inferior de aminoácidos essenciais do que outras proteínas animais, colágeno tem o diferencial de conter altos níveis de alguns aminoácidos específicos, que estão mais escassos na dieta da maioria das pessoas atualmente, como glicina, prolina e hidroxiprolina. Esses aminoácidos têm um papel de grande importância na manutenção da saúde e, embora sejam classificados como aminoácidos não essenciais, sua maior ingestão pode oferecer vários benefícios.

Glicina

Esse aminoácido é um substrato essencial para a síntese de várias biomoléculas e compostos biologicamente importantes, incluindo glicose, creatinina, porfirina e nucleotídeos de purina, neurotransmissores e também é um componente de ácidos biliares e ácido glicocólico. Participa da síntese de proteínas, do tripeptídeo glutationa e em reações de desintoxicação. Possui um amplo espectro de propriedades anti-inflamatórias, citoprotetoras (contribui para manter a integridade das estruturas celulares) e imunomoduladoras [48].

Prolina

A prolina desempenha papéis importantes na síntese e estrutura de proteínas, metabolismo e nutrição, bem como na cicatrização de feridas, reações antioxidantes e respostas imunológicas. As necessidades de prolina para a síntese de proteínas de todo o corpo são as maiores entre todos os aminoácidos [49].

Hidroxiprolina

A hidroxiprolina (um metabólito da prolina) desempenha um papel fundamental na síntese e estabilidade do colágeno. Foi demonstrado que várias anormalidades no metabolismo da hidroxiprolina desempenham papéis importantes na fisiopatologia e na patogênese de diferentes doenças [50]. Hidroxiprolina é reconhecida como substrato para a síntese de glicina, piruvato e glicose [49].

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Colágeno é o nome da proteína mais abundante do corpo humano, encontrada em maior concentração nas articulações, ossos e pele. O corpo a produz, com maior ou menor eficiência, dependento da qualidade da alimentação, com influencia também de fatores como idade e aptidão digestiva. Sua ingestão via suplementação ou alimentação em forma de colágeno hidrolisado ou colágeno parcialmente hidrolisado contribui com a saúde, principalmente favorecendo a maior síntese de colágeno, o que apoia a integridade da pele, ossos e articulações. Sua suplementação em forma de colágeno tipo II não desnaturado ajuda na modulação do sistema imunológico, tendo uma ação bem específica nas articulações, reduzindo a inflamação. O colágeno é uma rica fonte de glicina, prolina e hidroxiprolina, aminoácidos que, embora não essenciais, possuem funções importantes dentro do organismo.


Referências:

 

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